Titi Muller fala sobre polêmica no Lollapalooza, sexo e machismo na televisão



Titi Muller é uma mulher de atitude. Fala o que pensa, o que acredita, o que sente. Foi justamente falando o que acredita que virou o assunto da semana passada nas redes sociais.

Durante a transmissão do Lollapalooza 2017, em São Paulo, Titi criticou o DJ Borgore, que faz letras machistas, e virou assunto nas redes sociais, além de um grande símbolo do feminismo no Brasil.



Mas Titi é muito mais do que isso. Ela é a garota que viaja para fazer seu programa no Multishow e está prestes a lançar a quarta temporada do Anota Aí. Em entrevista para o TV História, Titi fala sobre tudo isso e muito mais, e fala também da Tielen Muller, que pouca gente conhece.

Leia a entrevista na íntegra:

TV História - Quais são as expectativas para essa nova temporada do Anota Aí? Já tem data de estreia ou algum destino confirmado?

Titi Muller - A nova temporada foi inteira em Portugal, ficamos 40 dias por lá. Todo mundo está falando que Lisboa é a nova Berlim, e realmente é, porque nós brasileiros não temos a barreira linguística. Conseguimos desfrutar de todas as delícias da terrinha de uma forma muito melhor (risos). Reviramos todos os cantos de Portugal, fomos na Ilha da Madeira, onde me emocionei muito, é um lugar mágico! Fomos a Cintra também, que já tínhamos conhecido na segunda temporada do programa. Nessa época era bem mais corrido e não conseguíamos ficar muito tempo em cada lugar. O legal dessa nova etapa é que eu consigo entender muito melhor a cultura de cada lugar. Ainda não temos uma data de estreia, mas a previsão é para junho. O Multishow tem todo um cuidado com as estreias de março, abril, maio, junho, e o meu programa costuma ficar para junho.

Na MTV, você comandou o Podsex junto com a Kika Martinez, desconstruindo tabus sobre sexo. Hoje o Amor e Sexo, da Globo, traz um conteúdo parecido. Você considera que o Podsex pode ter servido de inspiração? Qual a importância disso para a TV aberta?

O Podsex estreou em 2008 no portal da MTV e era algo bem despretensioso. No início era um podcast, depois virou um programa de TV. Não foi o primeiro programa de TV sobre sexo do mundo, nem mesmo na MTV. Teve o Erótica MTV, e antes o Ponto Pê, que foi um grande sucesso. A MTV sempre teve essa preocupação de falar de sexo de forma direta, leve, para o público que ela atingia. Hoje, o Amor e Sexo cumpre essa função num megafone, porque a Globo está em primeiro lugar e eles abordam temas polêmicos como identidade de gênero e feminismo sem medo. Eu acho um programa extremamente corajoso, divertido, informativo, libertário. Vida longa ao Amor e Sexo! Não sei se o meu programa serviu de inspiração, mas acho engraçado que gaúchas falem mais de sexo na TV. A Kika, a Fernanda Lima, eu. É brincadeira, a Penélope era daqui. Mas é uma coincidência engraçada. Ou talvez seja verdade mesmo que as gaúchas gostam mais de falar de sexo.

Você sente que o seu trabalho já foi diminuído ou que não foi levado tão a sério por você ser mulher?

Já senti sim, várias vezes. Cada uma sabe o peso que carrega. A gente sofre em maiores e menores escalas. Uma mulher negra, periférica, lésbica, gorda, tem muito mais barreiras a serem quebradas do que eu, que sou uma mulher vinda de uma família de classe média baixa. Não vim de uma família rica, mas sou branca, considerada padrão de beleza, mas, sim, já sofri bastante, principalmente na época em que eu era designer. Parecia que tinha sempre que ter um homem para validar a minha criação, a minha opinião, e não me dava conta na época que era por eu ser mulher. Na verdade, eu me dava conta, mas era tão "normal" que a gente deixava passar batido mesmo. Na época da MTV, quando começamos a gravar o Podsex, eu não sofri no trabalho, mas sofri muito preconceito por ser uma mulher falando sobre sexo. Antes tinha a Penélope, que era uma mulher forte, considerada até agressiva, mas que de agressiva não tem nada, ela é um doce (risos). Tem a Sue Johasson, que é uma senhorinha de 70 anos que tem um programa sobre sexo até hoje, com a maior naturalidade. Parece que tem que ser um estereótipo, quase caricato, para falar de sexo e virar uma coisa divertida. E nós, Kika e eu, estávamos lá como duas mulheres normais. Poderia ser a irmã, a namorada ou a prima de qualquer pessoa. Me lembro de um comentário específico de uma pessoa no portal da MTV, que dizia que "deveriam chamar os pais dessas gurias para dar porrada nelas e fazer elas pararem de falar putaria na TV". De resto, sofro o normal de sempre por ser mulher. Acabei de receber um WhatsApp de um serviço que fui resolver no shopping. Eu passei o número do meu celular para o cara e agora ele está me mandando mensagem. Não sei se ele está fazendo isso comigo porque eu sou mulher, se ele é sem noção, se sou mais disponível que as outras mulheres ou sei lá. Tenho uma atitude mais despachada que outras mulheres, mas tenho dificuldade para entender o comportamento masculino algumas vezes.



Em vários lugares da internet teve gente chamando teu feminismo de 'seletivo' por você criticar o DJ Borgore e não se pronunciar sobre o funk nacional. Como você lidou com isso?

Eu acho graça. Parece que as pessoas têm um leitor de mentes e ele está quebrado. Esse leitor diz que canto funk e danço até o chão (risos). Repetindo o que eu disse nas redes sociais: seja funk, pagode, sertanejo, rock, opera: se a letra julgar a mulher ou o gay ou os negros, serei contra. Minha crítica não foi pelo fato do Borgore não estar na minha frente, pois já critiquei músicos que tive a oportunidade de entrevistar. Lógico, guardadas as devidas proporções, já que era uma música do Péricles, que nem dá para comparar com as letras do Borgore. Era uma versão de Amélia. "Assim eu Largo o Freio", se não me engano. A letra diz que a louça está engordurada, a casa está suja e ele dá uma 'puxada' na mulher por não fazer os serviços domésticos. Perguntei para uma fã e ela disse que acha essa música realmente machista. Perguntei para o Péricles e ele disse que não era de autoria dele, foi muito aberto na hora. O diálogo é o mais importante, não é um ataque. Achei engraçado um portal que disse que eu ataquei o Borgore como se tivesse atacado ele de faca. Na verdade, eu estava somente reportando fatos, deixei a minha opinião mais pela expressão facial do que pelo texto. E não critiquei a pessoa dele, falei do trabalho. O ataque deveria ser menor ainda, já que eu estava falando do personagem. Mas o fato de ter levantado o assunto da semana em relação a isso, para mim, já está valendo. E que toda semana tenha um assunto diferente para que a gente debata o machismo, o sexismo na cultura, a violência doméstica, e todas as outras questões que permeiam este assunto.

Ainda assim, a esmagadora maioria dos comentários foi positiva, inclusive de outras famosas da música e da televisão. Falta falar de feminismo na TV?

Não sei se falta falar de feminismo na TV. Pelo que eu tenho percebido, todo o espaço que a gente tem para falar sobre isso tem sido bem aproveitado. A polêmica recente foi um vídeo da Antônia Fontenelle com o Caio Castro, por exemplo. Ela está sendo extremamente machista neste vídeo. No meu caso, muita mulher me criticou também, mesmo com os comentários positivos na maioria. Teve muito homem me criticando. As coisas se invertem nesses casos. Está sendo muito falado agora, vai ser falado cada vez mais, e vai ser cada vez mais natural. Tem que naturalizar o assunto até que ele não seja uma aspa, uma polêmica. Tem que ser absolutamente natural. O tipo de comentário que eu tenho lido na minha timeline é que "essa a gente leva pro mato e vai sem manteiga mesmo". Enfim. Tem uma análise muito boa que a Ana Paula Passarelli fez para o UOL, que esse tipo de crítica amola a faca de quem mata, e eu concordo com ela. Enquanto houver esse tipo de comentário e pensamento, eu vou continuar falando, e acredito que minhas colegas também. Isso não pode ser mais visto como atitude de coragem, tem que ser naturalizado. Um negro não aceitar mais o racismo, um gay não aceitar mais a homofobia. É isso que a gente está falando e é para isso que a gente luta.







commentDeixe sua opinião
menu