33 anos do último capítulo de Amor com Amor se Paga; relembre este clássico de Ivani Ribeiro


A Globo exibiu, entre março e setembro de 1984, às 18h, Amor com Amor se Paga, uma leve e despretensiosa novela de Ivani Ribeiro, repaginada de outra obra sua, vinda da TV Tupi: Camomila e Bem-Me-Quer. Nessa releitura, a saudosa e talentosa escritora novamente utilizou como mote central a peça O Avarento, de Molière; obviamente, incrementada com outras estórias secundárias. Substituiu Voltei pra Você, novela de pouca repercussão, uma espécie de continuação de outra, Meu Pedacinho de Chão, cujo remake foi visto em 2014.



Amor com Amor se Paga também veio alavancar a audiência do horário das 18h na época, que desde Dona Xepa (1977) não registrava tão bons índices de audiência. Tornou-se uma novela que certamente rodeia o lúdico e o imaginário infantil de muita gente por aí até hoje.

O maior destaque de Amor com Amor se Paga, certamente, é o memorável personagem avarento e rabugento vivido magistralmente por Ary Fontoura, interpretação esta que lhe rende, até hoje, uma grande associação ao personagem. É impossível não enfatizar também a bela atuação de Berta Loran, que viveu a empregada Frosina, e que saíra de programas humorísticos da Globo na época para ocupar o posto de protagonista. Juntos, o casal arrancou risos e gargalhadas de muitos telespectadores Brasil afora!

A estória se passava na pacata cidade de Monte Santo, onde ele, Nonô Corrêa (Ary Fontoura) vivia ao lado dos filhos, Tomaz (Edson Celulari), piloto de helicóptero, e Elisa (Bia Nunnes), uma eterna sonhadora; além, é claro, da já citada fiel empregada. Seu Nonô economizava tudo! Vivia dizendo para as pessoas que era pobre. Lembro-me que houve cenas em que ele trancava a geladeira, desligava a luz num horário específico e reclamava da demora nos banhos do pessoal da casa. Também era de praxe ele mandar Frosina requentar o café das visitas e remexer lixo na rua para reaproveitar algo. Vivia dizendo q tudo estava pela "hora da morte". Mas Nonô não era pobre. Ele tinha imóveis alugados e um tesouro escondido. O único que sabia o segredo era o amigo Anselmo (Carlos Kroeber), platonicamente apaixonado por Elisa. Durante o andamento da novela, os telespectadores vão sabendo aos poucos, através de flashbacks, o porquê de Nonô ser tão mão-de-vaca. Ele foi um menino (vivido por Alan Alencar) e um adolescente (Paulo Pouggi) muito pobre e sofrido, e por causa disso, desenvolveu um trauma que o fez se apegar aos bens materiais, esquecendo os reais valores da vida.

O conflito fica maior quando Nonô resolve cortejar a jovem Mariana (Cláudia Ohana), que se vê obrigada a aceitar a proposta de casamento do muquirana em troca do perdão da dívida de seus pais, o Dr. Vinícius (Adryano Reis) e Dona Helena (Beatriz Lyra), para desgosto do filho de Nonô, que era apaixonado pela moça. Nesse meio tempo, Mariana já namorava Tomaz, e Nonô não sabia, causando imbróglio entre pai e filho quando tudo foi descoberto.

Porém, o avarento acaba se tornando mais doce e sensível quando adota o órfão Zezinho (Oberdan Jr.), um menino alegre que amolece o coração do velho. Zezinho era criado por Tito (Flávio Galvão) e Santuza (Wanda Stefânia), que eram donos de um restaurante local, o Recanto. Um casal que vivia em conflito amoroso por causa do excesso de ciúmes da esposa. Zezinho também era bastante maltratado por Santuza, que não via o menino com bons olhos e dava todos os créditos e méritos de ao seu filho Carlito (Egon Azsman), que na verdade explorava e maltratava Zezinho, ao mandar o menino fazer suas lições do colégio, ameaçando lhe dar uma surra.

A vida de Zezinho começou a mudar quando ele foi levar um recado de Santuza pra Nonô Corrêa em sua casa. Adentrando a residência, o garoto foi ao quarto de Nonô e se encantou com o enorme relógio que lá havia. Foi quando então o grande segredo de Nonô acabou descoberto pelo garoto, que ao rodar e alinhar os ponteiros do relógio viu uma parede secreta se abrir e todo o tesouro revelado à sua frente. Quando Nonô flagrou o menino ao contemplar sua fortuna, só lhe ocorreu uma ideia: pra evitar que o segredo do tesouro fosse espalhado, ele iria adotar Zezinho. Começava aí uma grande amizade, e várias aventuras, na novela. Pelo seu carisma e talento, Oberdan Jr. conquistou bastante o público infantil na época, estando presente em outras produções, como a também inesquecível A Gata Comeu (1985), outro trabalho de Ivani.

No lado oposto, noutro núcleo, estava Tio Romão (Fernando Torres), que vivia servindo chazinhos para as pessoas como forma de distribuir calor humano e passar mensagens positivas. Tio Romão chegara à cidade numa bicicleta e adivinhava tudo que os personagens faziam; inclusive, ele sabia da fortuna de Nonô, que sempre se espantava e negava quando era indagado por ele. No dia em que tudo estava em seu devido lugar na novela (no penúltimo capítulo), Tio Romão diz ter cumprido sua missão e vai embora da cidade em sua bicicleta munida de todos seus apetrechos. Era como um mensageiro da paz!

Tio Romão morava na casa de Judite (Chica Xavier), uma senhora negra batalhadora, que fazia doces para sobreviver. Mais à frente da trama aparece Ângela (Júlia Lemmertz), atriz escalada no lugar de Angelina Muniz, que apareceu nos créditos da novela por um bom tempo, mesmo tendo sido remanejada para Vereda Tropical, a novela das sete na época. Filha de Judite, Ângela tinha vergonha da cor da mãe, principalmente por causa do preconceito do namorado Renato (Miguel Falabella), filho do Dr. Vinícius e Dona Helena. Também morava na casa de Judite o jovem Gustavo (Caíque Ferreira), que era filho de Anselmo e tentava descobrir a identidade desse pai. Anselmo possuía uma correntinha que pertencera a ele; e, além de Gustavo, Mariana também era sua filha, porém criada pelo Dr. Vinícius. Esse segredo de Anselmo, apenas sua irmã, Dona Elvira (Wanda Kosmo), e Nonô sabiam.

Também era filha do bondoso médico Vinícius, a maquiavélica e encrenqueira Bel (Narjara Turetta), que começou a novela namorando Cacá (Hugo Gross estreando), mas depois se apaixonou descontroladamente por Tomaz, o namorado da irmã. Numa das cenas em que Mariana e Tomaz se beijam dentro de uma piscina no clube, Bel se corrói de ciúmes e já começa a tramar com o sobrinho do prefeito, Sérgio (Paulo César Grande) um meio de separar os dois. Mas, durante toda a novela, Bel não consegue ter sucesso em seu plano e termina a estória ao lado de Rogê (Mário Cardoso), amigo de Tomaz.

Enquanto isso, a sobrinha de Nonô, Maria das Graças (Yoná Magalhães) era uma mulher alienada por tudo que era importado e só admitia ser chamada de Grace. Vivia preocupada com o casamento da filha Rosa Maria / Rosemary (Mayara Magri) com Johnny / João Paulo (Matheus Carrieri). O problema é que ele era filho do conservador, machista e nacionalista Bruno (Carlos Eduardo Dolabella), que vivia às turras com a futura sogra do rebento, Grace. O romance do casal rendeu boas gargalhadas na novela, como no dia da inauguração da loja de importados de Grace, onde ela contratou o cantor Marcos Valle pra cantar na frente de sua loja e Bruno, sabendo disso, contratou o cantor Agepê, em participações especiais dos dois cantores. Os dois acabaram ficando juntos no final, provando que os opostos realmente se atraem...

O prefeito da cidade era Barreto (Milton Moraes), demagogo que envolve as pessoas com seu ar generoso e bom, apenas com intenções de aumentar o seu eleitorado. Ao ficar viúvo da hipocondríaca Zélia (Vera Gimenez deixou a novela por problemas internos), Barreto envolve-se com Sílvia (Arlete Salles), amiga de Grace, que sonha em ser a primeira-dama, mas nem imagina que vai ter que enfrentar Camilinha (Giovana Pieck), a caçula do prefeito, uma verdadeira peste que passa a atormentar a vida da futura madrasta. Ainda nesse núcleo há outra filha, Dóris (vivida pela sósia de Glória Pires, a então desconhecida Graziela di Laurentis), Sérgio, e seu fiel escudeiro puxa-saco Tonicão (Lajar Muziris) com seu contínuo bordão - "Apoiado chefe, apoiado!", cada vez que o prefeito falava algo perto dele. Tonicão era apaixonado por Dona Elvira.

Foi a última novela do ator Paulo Gonçalves, que viveu Inácio, pároco de Monte Santo que se relacionava com todos os personagens e dava bastante conselhos pra Nonô. Ele morreria quase dois anos depois do término da novela. A grande sacada da trama foi mesmo o duelo cômico entre Nonô e Frosina. O casamento deles no final da novela veio provar ao rabugento velho avarento que acima de tudo, o que importa é o amor...

A novela contou com duas trilhas sonoras ótimas e que se encaixavam direitinho aos personagens. Na nacional, 'Água e luz', da Amelinha, com sua bela introdução ilustrava as cenas de Tio Romão. O Kid Abelha com um refrão de 'Por que não eu?' era o tema da Bel. O grupinho desconhecido Nova Embalagem cantava pra Johnny e Rosemary, um dos casais mais bonitinho da trama. Renato Teixeira cantava 'Tenho medo' pra Grace e Bruno, o casal brigão; Os Chicletes, para Mariana e Tomaz, nas cenas de amor dos dois. O Santa Cruz abria a novela, levantando o astral na abertura. Beto Guedes e 'Quando te vi' pra sensibilidade e pureza da Elisa, entre outras canções que faziam parte das cenas de movimentação da cidade. A trilha Internacional também é belíssima. Destaco 'Over You', que era tema de Tomaz e Mariana; 'Time after time' tocava bastante no clube da cidade; 'Believe in me' por várias vezes tocou durantes os calorosos beijos entre Bruno e Grace; 'Moments of love' pra Elisa e Gustavo; 'Tanta tristeza' pro Anselmo... Enfim, duas trilhas sonoras bem gostosas de ouvir!

Amor com Amor se Paga é uma dessas tramas gostosas de rever, pra realmente "levantar o astral". Tanto que ganhou uma reprise apenas três anos após seu término, em 1987. É uma novela leve e despretensiosa que, plagiando Dirceu Rabello nas chamadas da época, trazia "economia de vida e explosão de sentimentos numa estória romântica, engraçada, surpreendente!".


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