Como não amar Sinhá Moça? 10 motivos para conferir a reprise deste clássico no VIVA


Em 15 de novembro de 1986, com a reapresentação de seu último capítulo, Sinhá Moça encerrava sua passagem pelo horário das 18h. A produção da Globo fez carreira no exterior, voltou ao ar em 1993 - no Vale a Pena Ver de Novo -, e ganhou remake em 2006. Agora, reestreia no VIVA: é a trama que substitui Fera Radical (1988) às 14h30, com reexibição por volta de 1h15, a partir desta segunda-feira (29). Tá em dúvida se confere ou não este repeteco? Listei 10 motivos para aguçar a vontade de curtir este novelão!



Primeira jornalista formada em São Paulo, Maria Dezonne Pacheco Fernandes escreveu o romance Sinhá-Moça na década de 1950, inspirada nas recordações que guardava da infância passada na Fazenda Araruna, em Araras, interior do estado. Construiu o perfil da protagonista a partir de características de sua avó materna, a abolicionista Maria de Paula Zacarias. E reconstituiu os confrontos entre monarquistas e republicanos com base nas lembranças de Virgínia - interpretada, na novela, por Chica Xavier -, que fora escrava na fazenda e que, liberta, se mudou para a casa da senhora Pacheco Fernandes, onde viveu até sua morte. Trata-se, portanto, de uma história quase verídica, que Benedito Ruy Barbosa converteu, com primor, em novela - a obra também rendeu um longa-metragem, produzido pela Vera Cruz e protagonizado por Eliane Lage e Anselmo Duarte, em 1953.



A luta do casal abolicionista Sinhá Moça (Lucélia Santos) e Rodolfo (Marcos Paulo) contra os coronéis escravocratas - em especial o Barão de Araruna (Rubens de Falco), pai dela - conduz a narrativa. Sinhá Moça e Rodolfo, juntamente com outros partidários da causa dos negros, invadem senzalas na calada da noite, libertando os cativos. Os conflitos da trama central são enriquecidos com núcleos paralelos: o da noiva de Rodolfo, Ana do Véu (Patrícia Pillar), que, por conta de uma promessa da mãe Nina (Norma Blum), não pode revelar seu rosto, causando curiosidade em toda Araruna; o de Rafael (Raymundo de Souza), filho que o Barão tivera com uma escrava e que regressa à fazenda para enfrentar os desmandos do coronel; o romance de Adelaide (Solange Couto), mucama de Sinhá Moça, com José Coutinho (Tato Gabus), filho de escravagistas; e o Capitão do Mato (Tony Tornado), que persegue seus iguais.



Para contar esta história, a produção de Sinhá Moça reuniu um elenco de primeira: Cosme dos Santos (Bastião), Daniel Dantas (Ricardo), Gésio Amadeu (Fulgêncio), José Augusto Branco (Manoel Teixeira), Mauro Mendonça (Dr. Fontes) e a estreante Luciana Braga (Juliana), entre outros. O grande destaque, contudo, fica por conta de Lucélia Santos e Rubens de Falco. Os dois repetiam a exitosa parceria de Escrava Isaura (1976), que também retratava a luta abolicionista, reeditando a relação "cativa x senhor" - spoiler: embora Sinhá Moça fosse filha do Barão de Araruna, ele chegou a trancá-la na senzala e abriu fogo (sem saber de quem se tratava) contra a idealista. Rubens, infelizmente, já nos deixou; Lucélia, uma das maiores atrizes do país, segue negligenciada pelos canais de TV - sua última novela foi Cidadão Brasileiro (de Lauro César Muniz), no ar no já longínquo 2006, na Record.



Evidente que a união de Lucélia e Rubens em uma trama que remetia a Escrava Isaura causou burburinho no exterior. Explica-se: a trajetória da cativa de pele alva era então a obra mais vendida da Globo para o mercado internacional. A excelência de 'Isaura' acabou por promover cessar-fogo na guerra Bósnia x Sérvia, levou à eleição de Lucélia como melhor atriz num prêmio na China, "furou" o racionamento de energia elétrica em Cuba e até determinou a inserção de palavras no dicionário da Rússia. Logo, a receita infalível de Sinhá Moça mexeu com os consumidores de novelas brasileiras lá fora. Cerca de 50 países manifestaram interesse nos diretos da produção, antes mesmo da estreia. Segundo dados do Memória Globo, Sinhá Moça já havia sido exibida, até 2001, em 63 países. E Marcos Paulo chegou a ser premiado na Suíça por sua atuação.



O êxito de Sinhá Moça no exterior foi enaltecido nas chamadas da reestreia da novela, em Vale a Pena Ver de Novo. A Globo listou locais por onde a trama passou, exibiu cenas dubladas em outros idiomas e salientou: "Sinhá Moça, sucesso no mundo todo, pela primeira vez reapresentada no Brasil". Embora exitosa - média de 24 pontos, idêntica à da antecessora Bebê a Bordo (1988) e superior à da sucessora Barriga de Aluguel (1990, com 22 pontos) - Sinhá Moça foi uma das reprises mais editadas do 'Vale a Pena'. Era de praxe, neste período, compactar os folhetins em cerca de 80-90 capítulos; os 168 de Sinhá Moça foram condensados em 80, de 15 de março de 1993 a 2 de julho de 1993. O remake em 2006, com Débora Falabella no papel-título, "enterrou" a possibilidade de rever o original. Ledo engano; taí o VIVA, que escalou Sinhá Moça para substituir outro clássico das 18h, Fera Radical.



A reapresentação de Sinhá Moça nos permitirá matar a saudade de grandes nomes da TV brasileira que, infelizmente, já nos deixaram. Começando, claro, pelos protagonistas Marcos Paulo e Rubens de Falco, falecidos, respectivamente, em 2012 e 2008. Marcos, ator e diretor, vivia aqui seus bons tempos de galã "quase maduro", com passagens por tramas bem-sucedidas: Corpo a Corpo (1984), Brega & Chique (1987) e Tieta (1989), por exemplo. Já Rubens revivia o tipo que o fez mania nacional: o do vilão execrável, experimentado também em Escrava Isaura, O Astro (1977) e Bambolê (1987). Ainda: Antônio Pompeo (Justino), Cláudio Mamberti (Delegado Antero), Germano Filho (Everaldo), Grande Otelo (Justo), Luís Carlos Arutin (Augusto), Neuza Amaral (Inês), Sérgio Viotti (Frei José) e a inesquecível Jacyra Sampaio (Rute), a Tia Nastácia do lendário Sítio do Picapau Amarelo (1977).



Outros tantos nomes de Sinhá Moça se tornaram bissextos na TV. Caso de Elaine Cristina, ausente do vídeo desde uma participação em Chiquititas (2013), um dos rostos mais conhecidos da Tupi, fazendo aqui sua estreia em novelas da Globo - como Baronesa Cândida, a mãe de Sinhá Moça (mesmo sendo apenas sete anos mais velha que Lucélia Santos). Figura recorrente na teledramaturgia global na década de 70, Norma Blum - em 'Sinhá', dando vida à beata Nina - esteve recentemente em Além do Tempo (2015); clamamos pela presença dela no vídeo! Também as aposentadas Chica Xavier e Ruth de Souza (Balbina); esta última participou do filme de 1953 e aguardou ansiosa o chamado para a novela. E os então pequeninos Lizandra Souto e Selton Mello, em atividade na Record e no cinema, respectivamente, como Sinhá Moça e Rafael / Dimas quando crianças.



Se você não se interessa pela trama ou pelo elenco, acompanhe Sinhá Moça nem que seja para apreciar as tomadas incríveis dos diretores-gerais Jayme Monjardim e Reynaldo Boury, comandados pelo diretor executivo Nilton Travesso. Além da cidade cenográfica, construída em Guaratiba (zona oeste do Rio de Janeiro), e das cenas nos belíssimos cenários produzidos em estúdio, Sinhá Moça contou com gravações na Fazenda Veneza, datada do século XIX e localizada no município de Itatiaia, região serrana do Rio de Janeiro onde também está Conservatória, distrito usado como locação. O esmero também pode ser notado nos figurinos produzidos por Paulo Lois e sua equipe: após um cuidadoso levantamento de época, buscando todos os detalhes relacionados às roupas e adereços, os profissionais de costura da Globo confeccionaram todas as peças do vestuário. Padrão "plim-plim" de qualidade!



Tal padrão também é perceptível na seleção musical. Gilberto Gil embalou o núcleo dos escravos com 'Zumbi, a felicidade guerreira', pinçada da trilha do filme Quilombo (1984), de Cacá Diegues; Clara Nunes acompanhava as cenas de Ana do Véu com 'Ai quem me dera', composta por Vinícius de Moraes; e Ronnie Von se encarregava do som da protagonista, com 'Sinhaninha' (de Guinga e Paulo César Pinheiro) - reeditada na trilha de Escrava Mãe, exibida pela Record em 2016. O destaque, contudo, vai para a abertura: Ivan Lins colocou melodia em um poema de Maysa, que permanecia guardado nas gavetas de seu filho, o diretor Jayme Monjardim. Fafá de Belém pediu e assumiu os vocais, fazendo de 'Pra Não Mais Voltar' um dos mais belos temas de abertura de todos os tempos - pavorosamente substituído por 'Sinhá moça', de letra paupérrima e interpretação sofrível do cantor Leonardo, no remake de 2006.



Apesar de todos os méritos, Sinhá Moça não fala tão alto à memória afetiva quanto outros cartazes recentes do VIVA - A Gata Comeu (1985), Tieta (1989), Mulheres de Areia (1993)... E isso é ótimo! O êxito de produções que não tenham sido reexibidas com frequência ou não constem nas listas de "mais pedidas" pode determinar a exibição de outros folhetins em situação similar: sucessos que acabam na prateleira por anos, enquanto o cardápio ofertado pelo canal recorre a mais do mesmo - taí Por Amor (1997), que eu amo, reapresentada recentemente. Sinhá Moça estará bem acompanhada de Bebê a Bordo (1988), um dos mais altos índices das 19h que, tal e qual a novela de Benedito Ruy Barbosa, não costuma figurar nas listas de "preferidas do público". E de Explode Coração (1995), boa produção de Glória Perez, esquecida nas gavetas globais desde sua exibição original. Uma trinca nada óbvia e bem interessante.


Deixe sua opinião


Leia também