A novela que o SBT prejudicou: 21 anos do último capítulo de Razão de Viver; relembre trama e bastidores



- Razão de Viver, folhetim que o SBT encerrava há exatos 21 anos, era uma remake de Meus Filhos, Minha Vida (1984), novela de Crayton Sarzy, Henrique Lobo e Ismael Fernandes. Primeiro texto original da história do canal, 'Meus Filhos' contava a história de Luzia (Miriam Pires), abnegada mãe de três filhos problemáticos.



- Irene Ravache foi o nome escalado para a protagonista; na época, temia-se por uma versão contemporânea de dona Lola, sua personagem em Éramos Seis (1994). Ledo engano. Embora devotada aos rebentos, Luzia era mais sagaz e ativa do que Lola. Talvez por suas condições: a de mulher descasada, obrigada a trabalhar para dar conta dos gastos dos herdeiros - André (Marco Ricca), Pedro (Petrônio Gontijo) e Mário (Gabriel Braga Nunes).

- Regina Braga - colaboradora de Aguinaldo Silva em Tenda dos Milagres (1985) e autora do remake de Selva de Pedra (1986) - respondia pela adaptação, a princípio. Mas logo deixou o projeto, assim como suas colaboradoras Maria Celeste Lustosa e Virgínia Cavalcante.

- Analy Pinto e Zeno Wilde, com colaboração de Nara Gomes, assumiram o enredo. Neste interim, os nomes de alguns personagens foram trocados: Narciso virou Rafael (Ernando Thiago); Domingos (Gianfrancesco Guarnieri) passou a se chamar Alcides.

- O título do remake também foi alterado: de A Roda da Fortuna para Pedaço de Mim. Posteriormente, o definitivo, Razão de Viver.

- O SBT já havia produzido uma novela com este nome, em 1983, baseada num texto da mexicana Marisa Garrido. As duas tramas não possuem absolutamente nada em comum.



- Adriana Esteves foi contratada por Silvio Santos dias após o término de seu contrato com a Globo. A atriz, recém-saída da minissérie Decadência (1995), estava insatisfeita com a carreira - em razão do esvaziamento de seu papel em Renascer (1993) - quando recebeu a proposta para trabalhar com o então marido, Marco Ricca. Os dois já haviam dividido o set na novela de Benedito Ruy Barbosa; na sequência, Ricco migrou para o SBT, onde atuou em Éramos Seis.

- Os personagens de Adriana Esteves, Marco Ricca, Petrônio Gontijo e Gabriel Braga Nunes em Razão de Viver correspondiam aos de Cláudia Alencar, Denis Derkian, Carlo Briani e Raymundo de Souza em Meus Filhos, Minha Vida.

- Lu Martan viveu o mordomo Alípio nas duas versões.



- A prisão de Mário deflagra a ação da novela: o caçula de Luzia se envolve em um roubo de joias, influenciado pelos bandidos Miro (Cássio Scapin) e Ruffo (Raul Gazolla), que acabara de deixar a cadeia. O imbróglio obriga a super-mãe a vender sua casa para bancar a defesa do rapaz. André, revoltado com a pobreza em que vive, abandona a namorada Zilda para se unir a Olga (Mayara Magri), filha única de Iara (Joana Fomm).

- Alcoólatra, Olga padece com os desmandos da mãe e a frouxidão do pai, Pascoal (Sebastião Campos), que relegou a administração dos negócios da família a Iara. A madame se uniu ao empresário abdicando do amor de seu primo Álvaro (Eduardo Conde), temendo a pobreza. Contudo, Iara ainda se ressentia da disputa que travara com Luzia, também envolvida com Álvaro. Por conta disso, ela inferniza a vida da protagonista, encarregada de sua confecção - onde Zilda se destacava como estilista.

- Quando Álvaro retorna ao Brasil, falido após aplicar sucessivos golpes em ricaças, imediatamente pensar em seduzir Iara, transformando-a assim em mais uma de suas vítimas. Mas o reencontro com Luzia também o balança. Só que, a esta altura, a costureira está envolvida pelo delegado Renato (Fúlvio Stefanini), que efetuou a prisão de Mário. Renato é pai da introspectiva Rosa (Bel Kutner), psicóloga e violinista.

- Em meio à decadência de sua família, Pedro encontra apoio em Júnia (Cláudia Liz), estudante de medicina, apaixonada por motos. Ela o emprega em uma de suas oficinas, já planejado conquista-lo. Mas Pedro é apaixonadíssimo por Zilda, a mulher que seu irmão André rejeitou.

- Júnia se hospeda na pensão de Jandira (Cláudia Mello), vizinha de Luzia. Abandonada pelo marido, Jandira abre as portas de sua casa para jovens como Bruna (Ana Paula Arósio), aspirante a modelo que ambiciona sair debaixo das asas de sua irmã Sílvia (Vera Zimmermann). Envolvida com o marginal Ruffo, Bruna repete a trajetória de Sílvia, que acaba ganhando a vida como garota de programa.

- Jandira, a princípio, fora entregue a Lolita Rodrigues. A veterana acabou remanejada para o "núcleo rico", como Carmem, a melhor amiga da Iara.

- Sílvia, no fim da história, se revelou a grande assassina da história. Foi ela quem deu fim a Álvaro, atingido por um tiro do peito, num hotelzinho vagabundo do centro de São Paulo. O "quem matou?" foi um recurso, óbvio, para atrair audiência na reta final.



- O centro de São Paulo abrigava o núcleo dos menores abandonados. A discussão partia de Alcides, que se afeiçoa ao pequeno Nino (Rafael Pardo), que resiste a ingressar na marginalidade, como seus amigos de beco, "trombadinhas" feito Rato (Luciano Amaral). Também neste núcleo, a novíssima Fernanda Souza (Patrícia) - premiada com a protagonista de Chiquititas, Mili, no ano seguinte.

- Luciano Amaral e Cássio Scapin ainda colhiam os frutos de suas participações no infantil Castelo Rá-Tim-Bum (Cultura, 1994), onde viviam os meninos Pedro e Nino (de 300 anos). Luciano, dividindo o set com Guarnieri, revivia outra atração da emissora educativa: Mundo da Lua (1991), onde interpretavam Lucas e Orlando, neto e avô.

- Participaram da trama, como convidadas de um desfile de moda, a apresentadora Eliana - então à frente do Bom Dia & Cia - e a cantora Vanusa. Também Luiza Ambiel, famosa por conta da famigerada banheira de Gugu Liberato, como uma transeunte que desperta a atenção de Ruffo, tão logo este deixa a cadeia. Ainda, o repórter Wagner Montes, em sua função de âncora do jornalístico Aqui Agora, noticiando a prisão de Ruffo e Miro nos capítulos finais.



- Razão de Viver marcou a estreia da atriz Bete Coelho na direção. O supervisor Nilton Travesso a convidou para o cargo de diretora-geral. Bete declinou; preferiu a direção de atores, deixando o posto para Henrique Martins, que também participou como ator (vivendo Raul, interesse romântico de Luiza), assessorado por Antonino Seabra e Del Rangel.

- Enquanto a novela - para a qual fez aulas de pilotagem, aprendendo a conduzir a Kawasaki Vulcan 800 cilindradas de Júnia - ainda estava no ar, Cláudia Liz entrou em coma ao se submeter a uma lipoaspiração na barriga. Ela se recuperou após um breve período de internação, lutando contra sequelas de uma lesão no córtex (região posterior do cérebro) que afetou, temporariamente, a expressão facial.



- A novela estreou em 6 de maio de 1996, numa investida ousada do SBT: na mesma data, o canal lançou outros dois folhetins, realizados em parceria com produtoras independentes, Colégio Brasil (às 18h30) e Antônio Alves, Taxista (às 20h, com reexibição às 21h50.

- Insatisfeito com os índices atingidos pela trama - cerca de 9 pontos - Silvio Santos determinou que os capítulos fossem reapresentados em horário alternativo. Mas, diferentemente de 'Antônio Alves', que exibia o mesmo episódio duas vezes ao dia, Razão de Viver passou a ser apresentada do início, às 18h, com três semanas de atraso em relação aos capítulos que transcorriam normalmente às 21h.

- Os executivos do SBT operaram uma transformação na grade para alocar o repeteco: Razão de Viver passou a entrar às 18h, concorrendo com o problemático folhetim da Globo na faixa, Quem é Você. O TV Animal, com Angélica, deixou as tardes, entrando na sequência do Bom Dia & Cia. O Programa Sérgio Mallandro foi encurtado em 30 minutos. O Programa Livre, de Serginho Groisman, foi remanejado para 15h30; o Aqui Agora passou a entrar às 17h. Na sequência, a reapresentação de 'Razão', Colégio Brasil (às 18h45) e TJ Brasil (19h30), encurtado para que Antônio Alves, Taxista continuasse em exibição às 20h.

- Não houve solução, no entanto. Razão de Viver continuou patinando nos índices, longe de repetir o êxito de Meus Filhos, Minha Vida - que chegou aos 20 pontos.



- A autora Analy Pinto afirmou em entrevista ao jornal Folha de São Paulo: "A baixa audiência é resultado de uma série de fatores. Primeiro, o SBT lançou muito mal. Na época da Olimpíada, ainda deixou de exibir a novela e, quando exibia, editava tudo e mutilava a história, desrespeitando o gancho de cada capítulo".

- De fato, Razão de Viver passeou pela grade: foi exibida às 20h40, horário cedido à mexicana Maria Mercedes, estrelada por Thalia. Quando chegou ao fim, entrava no ar às 22h10.

- O desacerto entre autores, direção e emissora ficou evidente durante as gravações do último capítulo. Finais foram alterados no estúdio, sabe-se lá por ordem de quem. Irene Ravache declarou, em entrevista a Contigo!, que "as mudanças foram para melhor, já que existiam muitas incoerências no texto original".

- O tema de abertura, 'Redescobrir', com Elis Regina, foi utilizado também nos créditos de Ciranda de Pedra (Globo, 2008). O SBT, porém, fez melhor uso da música - a emissora-líder aproveitou-se apenas do refrão, repetido exaustivamente.

- Em 2005, o SBT derrubou a audiência do Vale A Pena Ver de Novo, da Globo, com Pérola Negra (1999) e a mexicana Maria do Bairro (1995). Contudo, as substitutas, Pequena Travessa (2002) e A Usurpadora (1998), não mantiveram os bons números. O canal então, pasmem, resolveu recorrer a Razão de Viver. O Ministério da Justiça, porém, não consentiu com a reclassificação da trama: manteve a indicação para maiores de 12 anos (com exibição permitida apenas após às 20h).

- Já em 2016, a emissora exibiu a mexicana Lágrimas de Amor (Corona de Lágrimas), produzida pela Televisa em 2012. Trata-se do remake de um texto de Manuel Canseco Noriega, de 1965, cujo mote muito se assemelha a Meus Filhos, Minha Vida e Razão de Viver: a mãe abnegada às voltas com os dilemas de seus três filhos.

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